O papel do psicólogo na Cirurgia Bariátrica

A definição de obesidade mórbida por critérios de peso corpóreo no mundo todo se estabeleceu em pacientes com aumento de 100% acima do peso ideal ou 45-50 kg de excesso com relação ao peso ideal. Essas proporções são representadas por IMC acima de 40 kg/m² ou classificadas como obesidade grau III. Esse dado pode incluir homens pesando mais de 120-130kg e mulheres pesando mais de 100-110 kg.

A Cirurgia Bariátrica é o mais eficiente recurso de tratamento para este quadro, uma vez que a diminuição de peso seguida deste procedimento pode promover rápida e considerável diminuição das comorbidades clínicas relacionadas à obesidade. Este tratamento justifica-se num contexto em que os tratamentos convencionais, tais como dieta, atividade física e medicamentos podem não proporcionar resultados satisfatórios para tratamento da obesidade mórbida.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) o Brasil é considerado hoje o segundo maior centro mundial em cirurgia bariátrica, atrás somente dos Estados Unidos.

A cirurgia bariátrica e metabólica, também conhecida como cirurgia da obesidade, ou, popularmente, redução de estômago, reúne técnicas com respaldo científico, destinadas ao tratamento da obesidade e das doenças associadas ao excesso de gordura corporal ou agravadas por ela.

A obesidade é uma doença crônica, causadora de sofrimento e que frequentemente leva a quadros de transtornos ansiosos, depressivos, alimentares e de personalidade.

Uma vez que o procedimento cirúrgico ocorre em uma esfera física, ele não atua em quadros psicológicos e padrões de funcionamento pré-existentes ligados ao comportamento alimentar.

Por conta disso é importante que exista o cuidado com a saúde mental do paciente tanto antes como depois da cirurgia. O papel da Terapia Cognitivo Comportamental na Cirurgia Bariátrica é atuar como tratamento adjuvante à intervenção cirúrgica, modificando crenças e hábitos relacionados ao comportamento alimentar e otimizando os resultados com o aumento da autoconfiança e da qualidade de vida através de um atendimento humanizado.

Tratamento:

A abordagem cognitivo comportamental tem sido a mais utilizada para tratamento da obesidade e tem como principais elementos para esta finalidade as mudanças estruturais no estilo de vida, padrões alimentares adequados, incentivo às atividades físicas, aumento do suporte social e lazer, além da identificação de aspectos motivacionais. Tem por base o reconhecimento da interdependência entre percepção, afeto e comportamento.

No que tange à definição dos objetivos no tratamento é possível destacar como metas a perda de peso, reaprender a sentir fome e saciedade, muitas vezes perdidas em quadros de Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica (TCAP), interrupção dos episódios de compulsão alimentar e mudanças saudáveis do estilo de vida como abandonar tabaco, abandonar ou diminuir álcool e abandonar outras drogas.

Para isso são utilizadas técnicas cognitivas e técnicas comportamentais para ajudar na modificação dos hábitos alimentares tais como:

  • Automonitoração: o paciente em tratamento deve ser incentivado a registrar, diariamente, o consumo realizado de comidas e bebidas no decorrer do dia ou outros aspectos, tais como atividade física, local da refeição, sentimentos relacionados aos alimentos, episódios compulsivos e outras observações especificas, de acordo com a necessidade individual.
  • Controle de estímulos: identificação de situações que favorecem a recorrência da compulsão alimentar a fim de reduzir a ingestão calórica por meio de técnicas de controle à exposição do paciente a estímulos ambientais, comportamentais ou cognitivos que disparem os comportamentos que se deseja modificar. É sugerida a limitação de alimentos altamente calóricos ou pobres em calorias e estímulo das refeições à mesa com garfo e faca, além de evitar fazer as refeições enquanto assiste TV, participa de jogos ou outras atividades. Acrescenta-se ainda que frutas e verduras devem ser colocadas à vistas para o consumo fácil, enquanto alimentos gordurosos devem tirados de circulação para facilitar o controle de estímulos. Ao mesmo tempo, tenta-se aumentar a exposição aos estímulos que favorecem esta modificação.
  • Identificação do Estágio Motivacional: avaliação da manifestação da vontade de perder peso e a real disponibilidade para se engajar em programas que modificam em sua essência o estilo de vida inadequado.
  • Imagem corporal: ocorre como resultado da interação entre as pessoas, numa junção de aspectos biológicos, emocionais, relacionais e contextuais. Ou seja, são interações permeadas por informações advindas do contexto cultural que perpassam as barreiras grupais, familiares e alcançam o espaço individual. Quando há desequilíbrio na intensidade da demanda relacionada à aparência física as pessoas são pressionadas em numerosas circunstâncias a concretizar em seu corpo o corpo ideal da cultura do meio em que estão inseridas.
  • Reestruturação Cognitiva: consiste em procurar modificar as crenças irracionais que mantêm e reforçam os padrões disfuncionais dos pacientes através de perguntas a respeito dos pensamentos apresentados e busca de evidências a favor e contra as avaliações e interpretações dos eventos apresentados e da realidade. Pensamentos automáticos negativos ou autodepreciativos, pensamentos do tipo tudo ou nada (chamados de dicotômicos), mitos nutricionais, desculpas e racionalizações que promovem os hábitos desadaptativos devem ser identificados na psicoterapia, reavaliados e, quando necessário, substituídos por outros melhor adaptados.
  • Treino em resolução de problemas: ajuda o paciente a desenvolver estratégias alternativas para enfrentar suas dificuldades sem recorrer à alimentação inadequada. Tem o objetivo de identificar situações disparadoras dos comportamentos indesejados e possíveis soluções para estas ocasiões a serem desenvolvidas pelo paciente. Compreende os passos de definição do problema, geração de soluções alternativas, tomada de decisão e prática da solução escolhida e avaliação de seus efeitos. Desta maneira treina o cliente para funcionar como seu próprio terapeuta.
  • Treino em Habilidades Sociais: conjunto de classes e subclasses comportamentais que o indivíduo apresenta para atender as diferentes demandas de situações interpessoais que podem acontecer em diferentes contextos. Desta forma compreendem as habilidades sociais algumas competências que facilitam a iniciação e relacionamentos sociais positivos como iniciar, manter e encerrar uma conversação; fazer e responder perguntas; manifestar opinião; expressar apoio e solidariedade; falar em público; tomar decisões; e a fazer amizades. As principais dificuldades de habilidade a serem treinadas podem envolver situações de sentimentos negativos, frustrações, comunicação, fazer e receber críticas, ser assertivo, colocar limites, socializar-se, adiar prazeres, reconhecer e enfrentar situações de risco e realizar um planejamento.
  • Prevenção de Recaída: visa manter as conquistas das intervenções anteriores por meio da antecipação e preparação para o enfrentamento de situações de estresse que anteriormente ativavam os padrões disfuncionais. Para isso ensina-se a prever situações nas quais esses desvios têm alta chance de ocorrer e estratégias para se lidar com eles. É importante para evitar que um lapso se transforme num gatilho de recaída ao entrar em circuitos cognitivos negativos, ou distorções cognitivas.
  • Papel da família no tratamento: ajuda a criar uma estrutura de colaboração em que os pais/cônjuges proporcionem um meio facilitador de mudanças através da melhora da comunicação e definição conjunta de metas, aceitação das diferenças individuais e busca da autonomia.

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Débora Benfatti Psicóloga © 2026 - Todos os Direitos Reservados