Talvez o problema não esteja só em você. Venha comigo aqui entender por quê.
Quando alguma coisa não vai bem, a tendência é olhar para dentro.
“Por que eu não consigo lidar com isso?”
“Por que todo mundo parece dar conta e eu não?”
“Será que tem alguma coisa errada comigo?”
A gente aprendeu a fazer esse tipo de pergunta quase no automático.
Só que existe uma outra possibilidade: talvez seja hora de olhar para fora também.
E se o problema não for só seu?
Imagine uma pessoa exausta, trabalhando demais, dormindo pouco, preocupada com dinheiro e tentando responder a todas as expectativas ao mesmo tempo.
É muito fácil transformar tudo isso em uma questão individual:
“Preciso ser mais forte.”
“Tenho que me organizar melhor.”
“Eu que não estou sabendo administrar minha vida.”
Mas e se parte desse sofrimento tiver relação com as condições em que essa pessoa está vivendo?
É aqui que entra uma provocação feita pelo filósofo e crítico cultural Mark Fisher.
Em sua obra, Fisher discutiu como questões sociais e coletivas podem acabar sendo percebidas como problemas exclusivamente individuais.
Em outras palavras: o que é produzido, pelo menos em parte, pelo ambiente pode acabar parecendo uma falha pessoal.
A culpa sempre encontra um indivíduo
Essa lógica aparece em situações bastante comuns.
Você está sobrecarregado? Talvez precise aprender a administrar melhor o tempo.
Está esgotado pelo trabalho? Talvez precise desenvolver mais resiliência.
Está angustiado com a situação financeira? Talvez precise simplesmente se organizar.
Está se sentindo insuficiente? Talvez o problema seja sua autoestima.
Percebe o padrão?
Existe sempre uma explicação que devolve a responsabilidade para o indivíduo.
Isso não significa que nossas escolhas não importem. Elas importam.
Mas elas não acontecem no vácuo.
Ninguém escolhe suas condições de vida do zero.
A pergunta que muda a conversa
Por isso, talvez “o que há de errado comigo?” seja apenas uma parte da investigação.
Outra pergunta pode abrir espaço para uma compreensão diferente:
“O que está acontecendo ao meu redor?”
Como estão minhas relações?
Como está meu trabalho?
Tenho espaço para descansar?
Estou vivendo sob uma pressão constante?
Quais expectativas estou tentando atender?
Que condições estão influenciando a maneira como estou me sentindo?
Olhar para essas questões não significa procurar um culpado.
Significa parar de tratar o sofrimento como se ele tivesse necessariamente uma única origem e, principalmente, como se toda dificuldade fosse prova de uma falha pessoal.
Nem tudo está em você
A psicologia considera que a saúde mental é influenciada por uma combinação de fatores. História de vida, relações, ambiente, condições sociais e experiências individuais se encontram o tempo todo.
Por isso, compreender o sofrimento também envolve compreender o contexto.
Talvez algumas coisas possam ser transformadas individualmente.
Outras dependam de mudanças nas relações, no trabalho ou nas próprias condições de vida.
E algumas simplesmente não estão sob nosso controle.
Reconhecer essa diferença pode ser importante.
Porque antes de pensar “o que há de errado comigo?”, talvez valha perguntar:
“O que está acontecendo comigo, na vida que estou vivendo?”
Às vezes, a resposta não está apenas dentro da gente.
E perceber isso também pode ser uma forma de cuidado.